O grupo Los Catedrásticos desembarca em Camaçari no próximo dia 30 de agosto (sábado), às 19h, no Teatro Cidade do Saber, para apresentar o espetáculo “Macetando o Apocalipse”. A montagem, que mistura humor, crítica social e irreverência, marca a retomada das atividades culturais no espaço, reaberto após um amplo processo de revitalização.
Fundado em 1989, o coletivo baiano consolidou sua trajetória ao transformar a música popular brasileira em material cênico, desvelando sentidos ocultos e provocando reflexões sobre comportamento, cultura e poesia. Em sua nova versão, o espetáculo revisita letras de axé, pagode, arrocha, funk, sertanejo e samba-reggae, ressignificando canções que, ao perderem o ritmo contagiante, revelam camadas inesperadas de humor, nonsense e crítica.
No palco, o público reencontrará nomes que marcaram a história da trupe: Cyria Coentro, Jackson Costa e Maria Menezes, além de Zéu Britto, que retorna ao grupo. A direção é de Paulo Dourado, a produção de Milena Leão e Milena Ribeiro (Carambola Produções) e a realização local da Zup Entretenimento.
Atualizar sem perder a essência
Questionada sobre os desafios de trazer de volta uma montagem com mais de três décadas de existência, Cyria Coentro foi categórica ao afirmar que “Macetando o Apocalipse” não é uma simples adaptação, mas sim uma atualização fiel à proposta original.
“O nosso espetáculo, na sua criação, era formado por atores, vestidos a caráter, recitando essas músicas como se fossem eruditas poesias, revelando, dessa forma, a ludicidade das letras da axé music, que sempre teve um ritmo delicioso e contagiante, tanto para dançar, quanto para cantar, fazendo com que as pessoas não se ligassem no que estavam cantando; o resultado era muito engraçado, porque, aparecia um texto inusitado, dito, sem a melodia, com suas repetições silábicas, meio sem sentido; o nosso trabalho, hoje, foi atualizar esse repertório, com o mesmo objetivo, revelar o conteúdo das letras, ditas, nua e cruamente, portanto, seus traços e poéticas originais estão preservados, são atores, com cátedra, recitando essas letras, que definitivamente, não são eruditas.”
Segundo a atriz, se antes o riso predominava, hoje a experiência provoca também vergonha, incômodo e incredulidade. “(…) a música popular brasileira, nessas expressões, funk, pagode, axé, ficaram monotemáticas e muito explícitas (…) A nossa abordagem é exatamente retirar a musicalidade e a sonoridade, para revelar o que o ritmo mascara.
A musicalidade como espelho social
Para os integrantes, o espetáculo só alcança sua potência porque a música é parte indissociável da vida social baiana. Cyria ressalta que, ao eliminar a sonoridade, o grupo desnuda o que está por trás da batida contagiante: “A música nos representa e nos contagia, e nos deixamos levar por ela. Por isso, nosso espetáculo é tão revelador: mostra ao público o que ele realmente ouve, canta e dança.”
Já para Jackson Costa, quando perguntado sobre a inserção da musicalidade no seu contexto pessoal, afirma: “Eu sou um ser em busca de poesia e harmonia no meu dia a dia. Como disse Gilberto Gil, cultura é ordinário, da ordem do dia, igual a feijão com arroz. Então, a música, a poesia, o teatro, as artes, são alimentos que determinam o meu jeito de ser. Falar é música. Desde quando cheguei em Salvador, o ritmo passou a ser determinante na minha expressão.”
Essa busca pelo ritmo e pela poesia se conecta à memória afetiva do circo, que o marcou ainda na infância. Jackson recorda os primeiros carros chegando, os animais, as lonas cravejadas de estrelas e a atmosfera vibrante de um mundo transitório e encantador. Aquele universo o arrebatou e despertou o desejo de fazer parte de uma arte que fosse movimento, viagem e deslumbramento. Mais tarde, no teatro, reencontrou essa mesma centelha: a intensidade do circo convertida em permanência cênica. É por isso que, para ele, não é o estrelato televisivo que atrai, mas a força viva do palco e da lona, paixões que seguem moldando sua trajetória.
“O teatro é o circo possível pra mim.”
“Eu devo ter visto um Circo pela primeira vez com uns 6 anos de idade. Via chegando os primeiros carros, os animais, aquela diversidade de pessoas estranhas, exóticas e bonitas, tudo muito mágico, levantando lonas coloridas com estrelas desenhadas, muita arte, movimento, vida e transitoriedade. Eu me encantava e tinha vontade de fazer parte daquele universo, viajar, correr mundo. Quando vi teatro pela primeira vez, amador, na minha escola, senti algo, em uma dimensão menor, semelhante a aquela sensação que o circo causava em mim. Mais pra frente, na adolescência, vi teatro em um teatro edificado, então senti novamente aquela sensação, como se fosse algo a me perseguir. Então, o teatro é o circo possível pra mim. Não me encanta tanto o estrelato televisivo quanto me encanta o teatro e o circo.”
É do cruzamento entre ludicidade e crítica que nasce “Macetando o Apocalipse”. A montagem dos Los Catedrásticos conduz o público por camadas da música popular brasileira, revelando, sob a cadência contagiante de gêneros como axé, pagode e funk, uma poesia inesperada — ora cômica, ora desconfortável, sempre reveladora. Ao despir as letras de sua musicalidade, o espetáculo instiga riso, surpresa e reflexão, iluminando aspectos profundos da sociedade contemporânea.
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