Dalmo Peres defende fortalecimento do teatro e das políticas culturais na Bahia

A experiência de quem acompanha há mais de três décadas as transformações da produção cultural baiana foi o ponto de partida para as reflexões de Dalmo Peres em entrevista concedida à Band. Fundador da Caderno 2 Produções e com uma trajetória diretamente ligada ao teatro, o produtor abordou questões que atravessam o setor cultural e que ganham peso particular quando observadas a partir da realidade das artes cênicas na Bahia.

“Eu atuo aqui no setor cultural da Bahia há mais de 30 anos. Então, eu entendo a cultura como um bem muito precioso, não só para o povo baiano, mas para a humanidade. Isso tem que ser servido de uma maneira muito responsável”, afirmou.

A declaração sintetiza uma perspectiva construída a partir da atuação em um setor que depende de uma combinação delicada entre criação artística, políticas públicas, financiamento, produção e formação de público.

No teatro, essa relação se torna especialmente evidente. Colocar um espetáculo em cartaz envolve uma cadeia extensa de profissionais e custos, da criação e dos ensaios à cenografia, figurino, iluminação, equipe técnica, comunicação, produção e manutenção das temporadas. A existência de uma produção artística consistente, portanto, está diretamente relacionada às condições oferecidas para que artistas e grupos consigam desenvolver e manter seus trabalhos.

Uma trajetória que começou pelo teatro

A relação de Dalmo Peres com a cultura baiana passa diretamente pelas artes cênicas. Antes da ampliação da atuação da Caderno 2 para outras áreas da produção cultural, o teatro esteve entre as bases da trajetória construída pela produtora.

Ao longo dos anos, a empresa esteve relacionada a montagens e iniciativas importantes da cena baiana, acompanhando também as mudanças nas formas de produção, circulação e financiamento dos espetáculos.

Essa proximidade permite observar um dos principais desafios históricos do teatro: a dificuldade de estabelecer continuidade.

Uma montagem não termina no processo criativo. Para que uma obra encontre o público, permaneça em circulação e remunere adequadamente os profissionais envolvidos, é necessária uma estrutura que permita sua sustentação. É nesse ponto que mecanismos de financiamento, patrocínios e políticas públicas passam a ocupar uma posição decisiva.

Teatro precisa de política cultural contínua

A discussão levantada por Dalmo também chama atenção para uma questão recorrente entre artistas e produtores baianos: a necessidade de políticas culturais capazes de oferecer previsibilidade ao setor.

Mecanismos de incentivo, fundos públicos, editais e programas de patrocínio cumprem papéis diferentes dentro desse ecossistema. Para as artes cênicas, a regularidade desses instrumentos pode determinar não apenas a estreia de novos espetáculos, mas a manutenção de grupos, temporadas, circulação, pesquisa e formação artística.

A questão vai além de financiar obras isoladamente. Uma política voltada ao teatro precisa considerar toda uma cadeia produtiva e compreender que a continuidade da atividade artística depende da existência de condições concretas para o seu desenvolvimento.

Também significa reconhecer o acesso à cultura como parte de uma política pública. Se a produção não encontra condições para existir e circular, a consequência chega ao público, que passa a ter menos oportunidades de contato com espetáculos e outras manifestações artísticas.

Uma cena histórica que ainda enfrenta dificuldades

A Bahia possui uma tradição teatral reconhecida nacionalmente e reúne atores, diretores, dramaturgos, técnicos, produtores, grupos e companhias responsáveis pela construção de uma produção diversa ao longo de diferentes gerações.

Essa potência artística, porém, convive com dificuldades estruturais.

A manutenção de temporadas, a circulação pelo interior, a remuneração das equipes e a possibilidade de desenvolver novos trabalhos continuam dependendo, em grande medida, da disponibilidade de recursos e da existência de mecanismos permanentes de fomento.

Por isso, discutir financiamento cultural significa também discutir quais condições estão sendo criadas para que a produção teatral baiana consiga permanecer ativa entre um projeto e outro.

Cultura como responsabilidade

Ao definir a cultura como um “bem muito precioso”, Dalmo coloca no centro da discussão uma responsabilidade que não pertence apenas aos artistas.

Poder público, iniciativa privada, produtores, instituições culturais e sociedade fazem parte de uma estrutura que determina quais projetos conseguem sair do papel, quanto tempo permanecem em circulação e quais públicos conseguem alcançá-los.

Para o teatro baiano, o debate se torna ainda mais urgente diante da necessidade de transformar uma produção artística historicamente reconhecida em uma atividade que também ofereça continuidade profissional para quem vive dela.

A entrevista concedida por Dalmo Peres à Band parte de uma trajetória individual, mas alcança uma discussão coletiva: preservar a força do teatro e da cultura produzidos na Bahia exige não apenas reconhecer sua importância, mas construir condições para que artistas, grupos e profissionais possam continuar criando, trabalhando e encontrando o público.

Relacionados

Festival Internacional de Teatro da Caatinga chega à 9ª edição com programação em três cidades do semiárido baiano

Melanina Acentuada Festival celebra os 80 anos do Teatro Experimental do Negro com programação em Salvador

Confira também...

Prêmio Bahia Aplaude

Sulivã Bispo destaca trajetória no teatro negro e celebra nova fase da carreira